quarta-feira, 6 de abril de 2016

Mudanças climáticas e a migração das tartarugas



   O assunto que trazemos hoje ao blogue é sobre os impactos que as mudanças climáticas têm nas migrações de espécies marinhas.
Para começar, migração ocorre quando uma população de seres vivos se desloca de um biótopo para o outro, normalmente em busca de melhores condições para viver, seja por razões alimentares, de temperatura ou para fugir a predadores.
Pegando no caso particular das tartarugas marinhas, um ser vivo em que a maioria das espécies são migratórias, têm uma distribuição vasta ocupando tanto ecossistemas terrestres como ecossistemas marinhos. Como um grupo, são boas indicadoras de efeitos de alterações climáticas nas zonas costeiras e marinhas.
Pertencem à ordem Testudinata e das sete espécies existentes, seis pertencem à família Cheloniidae:
·         Tartaruga-verde (Chelonia mydas);
·         Tartaruga-comum (Caretta caretta);
·         Tartaruga-de-kemp (Lepidochelys kempii);
·         Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea);
·         Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata);
·         Tartaruga marinha australiana (Natator depressus)
e uma à família Dermochelyidae:
·         Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea).
São animais extremamente sensíveis a pressões ambientais, todas as espécies se encontram ameaçadas a diferentes níveis, desde vulnerável (D. coriacea, L. olivacea, C. caretta), passando por ameaçada (C. mydas) a perigo critico (L. kempii, E. imbricata). Relativamente a N. depressus não existe informação suficiente.


Imagem esquemática da migração das tartarugas
Efeitos directos e impactos do aumento de temperatura
As tartarugas marinhas, em comum com muitos outros répteis mostram uma dependência total da temperatura para a determinação do sexo. À temperatura ideal o rácio entre os sexos é 50:50, a temperaturas mais elevadas as fêmeas predominam e vice-versa. Temperaturas quentes poderão levar à produção de crias do sexo feminino e, consequentemente à sua extinção.
A temperatura influência o tamanho das crias, temperaturas mais elevadas dão origem a crias mais pequenas. Este facto influência as hipóteses de sobrevivência das mesmas. Para além de nascerem mais fêmeas, também nascem mais pequenas o que compromete a sua capacidade de escavar, rastejar e nadar.
Fibropapilomas em tartarugas

Supõe-se que os fibropapilomas crescem mais rapidamente em águas mais quentes, o que poderá provocar o aumento da incidência de fibropapilomas em C. mydas.




Impactos directos do aumento do nível do mar
O aumento do nível do mar deverá afectar directamente as tartarugas pois perderão praias onde efectuam a postura dos ovos. Com um aumento previsto de 0,5 metros, vários modelos indicam a perda de 32% das praias de postura.
A construção de barreiras para impedir o avanço do mar afectará as praias e poderá afectar as rotas migratórias das tartarugas-marinhas.

Mudanças nas correntes oceânicas:
As correntes e as frentes oceânicas são importantes para a migração e alimentação das tartarugas marinhas. Qualquer mudança nas correntes dos oceanos resultante de alterações climáticas tem implicações sérias na migração e alimentação das mesmas, o que poderá resultar em alterações na distribuição e abundância das diversas espécies de tartarugas marinhas. Espécies diferentes habitam zonas diferentes, por exemplo, a tartaruga-comum prefere regiões do oceano com temperaturas entre 15°C -25°C, já as tartarugas-oliva preferem águas mais quentes, com temperaturas entre 23°C -28°C.
As diferentes zonas do oceano habitadas pelas tartarugas marinhas estão associadas a correntes que transportam águas ricas em nutrientes, atraindo muitos predadores. Ora, qualquer alteração no regime destas correntes vai causar mudanças na distribuição e disponibilidade de alimento, e como tal, isto poderá alterar as rotas migratórias das espécies que dependem desse alimento.

Alterações na frequência de tempestades, velocidade do vento e condições das marés/ondas:
O aumento da frequência das tempestades, da velocidade do vento e das condições do mar irão conduzir a um aumento da erosão costeira e, consequentemente provocar danos nos ecossistemas costeiros. A deposição de ovos pelas tartarugas-marinhas é posta em causa quando existem alterações nas condições do mar e na frequência da ocorrência de tempestades.
Os potenciais efeitos das alterações climáticas nas tartarugas-marinhas:
·         Perdas de praias de desova;
·         Redução dos intervalos de desova;
·         Redução do tempo de permanência nos sítios de desova;
·         Mudanças na migração, abundância e disponibilidade de presas;
·         Rácio entre machos e fêmeas

Adaptação: implicações das alterações climáticas na gestão e conservação das tartarugas marinhas
As medidas de protecção das tartarugas marinhas incluem a protecção das correntes, das praias de desova e minimização da degradação dos habitats induzida pelas actividades humanas. A natureza desta degradação e o impacto nas comunidades de tartarugas marinhas poderão mudar com as alterações climáticos e, por isso, as políticas de conservação e gestão precisam de ser flexíveis de forma a adaptarem-se a estas mudanças. Todas as ameaças a reduzir (captura dos ovos, poluição, tráfego marítimo, pescam etc.) necessitam de ser direccionadas tanto a nível global como a nível local.

No entanto, estas medidas de protecção e conservação não conseguirão resolver todos os problemas das tartarugas marinhas face às alterações climáticas e, como tal, a mitigação dos gases com efeitos de estufa de forma a impedir o aumento da temperatura poderá ser a única solução.





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